Como desconfiar e diagnosticar?

Salve raras exceções, o diagnóstico é tardio. Em sua primeira fase a diferença entre o Alzheimer e o processo do envelhecimento saudável é tênue, porém perceptível quando visto por um olhar sensível. Para isso é necessário que tenhamos conhecimento e principalmente nos livremos do preconceito, que faz com que o familiar tarde a investigar os sintomas apresentados abaixo:

  • MEMÓRIA: No Alzheimer é comum lembrar de algo muito antigo e esquecer o que acabara de fazer. É um esquecimento diferente daquele visto no amadurecimento da vida, ele te impede de ser independente por fazer confusão com medicamentos, esquecer o caminho de casa, esquecer aquela palavrinha ou então a panela no fogo. Normalmente o familiar percebe que uma pergunta é feita diversas vezes no mesmo dia.

Normal: Quem nunca parou pra pensar “o que eu comi no café?” que atire o primeiro dólar na minha conta! Esquecer faz parte da vida. Mas quando a gente pergunta quatrocentas vezes a mesma coisa, aí deixa de ser normal e passa a ser preocupante.

  • Realização de tarefas: A realização das tarefas habituais sofre danos já na fase inicial da doença, quando o idoso passa a perder dinheiro e desconfiar de familiares, esquece de colocar as contas em dia, passa a comprar produtos que já tem em casa, não entende o mecanismo de eletrodomésticos como televisões e perde a capacidade de executar muitas tarefas ao mesmo tempo, além de não conseguir planejar eventos com antecedência e organizar sua própria agenda.

Normal: Eu fico mais perdido que cupim em metalúrgica quando compro uma nova televisão ou computador. Leva tempo pra entender o mecanismo, e já perdi o prazo de vencimento de algumas contas. Porém, quando a desorganização que nunca fez parte do contexto daquele idoso passa a ser regra e não exceção, lógico que vale a investigação, afinal de contas não é normal comprar um desodorante por dia já tendo 18 em casa.

  • Desorientação: As horas, dias, meses e anos acabam criando um cenário confuso para o idoso. Não é difícil nesse estágio que o idoso se perca na hora de responder que dia é hoje, assim como não saberá informar há quanto tempo está no local ou que local é esse, apresentando confusão no reconhecimento.

Normal: É ok esquecer o ano em que estamos, fazer o cálculo da idade de vez em quando e até se perder nos horários (eu que o diga, sempre atrasado!). Mas deixa de ser normal quando achamos que o ano é 800 A.C ou dizemos que é verão se estamos de casaco e cachecol.

  • Linguagem: O idoso passa a se perder no meio da frase que recém começara, ou então atropelar o diálogo cortando o assunto, ficando mudo e não lembrando palavras normalmente utilizadas por ele. Nesse estágio é difícil conseguir a atenção do idoso em filmes ou outras atividades de longa duração, pois ele não consegue acompanhar o raciocínio dos diálogos e perde a paciência.

Normal: Sim cidadão, eu também me perco vendo “Código Da Vinci” e não tenho paciência pra assistir “Titanic” até o final. Mas quando situações de baixa complexidade como acompanhar a novela ou manter um diálogo com o neto se tornam difíceis é um sinal de alerta.

  • Comportamento: O isolamento social e a depressão são causados pela noção que o idoso pode ter, nesse primeiro momento da doença, de seu próprio esquecimento. É horrível reconhecer uma limitação, por isso acabamos nos afastando de familiares, já que o diálogo está prejudicado por alguma palavra que não surge, ou então ficamos agressivos quando somos pressionados a dizer o ano e não sabemos. A personalidade sofre um pouco aqui também, uma pessoa normalmente alegre pode ficar um pouco apática.

Normal: Eu esqueço algumas palavras de vez em quando e já fico bastante irritado tentando lembrar. Já pensou quando esse esquecimento te impede de manifestar algo quando uma palavra simples tipo FOME não surge…?

  • Agnosia: É a dificuldade de reconhecer o significado e utilidade de símbolos e objetos. Já pensou esquecer para que serve o controle da televisão? Ou então não fazer idéia do que é a placa de PARE no trânsito? Isso pode ser Alzheimer.

Normal: Moacyr Scliar já nos disse uma vez, não encontrar a chave do carro é velhice (falando nisso cadê minha chave?), mas lembrar onde as chaves estão e não saber para que servem é Alzheimer. Entendeu a agnosia?

  • Julgamento: Nossa capacidade de julgamento é o que nos impede de sair de casa com um sapato de cada cor, com a roupa do lado avesso, uma combinação estranha de roupas para aquela pessoa e até mexe com nossa higiene, pois quando nosso julgamento é afetado também passamos a dar menos valor para o banho, maquiagem, cabelo e estética em geral. É essa capacidade também que nos faz pensar antes de dar dinheiro de forma irresponsável, de utilizar roupas de acordo com a estação e pensar antes de nos colocar em uma situação de risco.

Normal: Claro que às vezes a gente ousa com um chapéu ou até com uma moda extravagante, mas isso deve fazer parte da nossa personalidade e estamos cientes do grau de estranheza que pode causar. Imagina comigo, minha avó uma senhora tão elegante e discreta, de repente com estampa de zebra na camisa, de onça na calça e de girafa no sapato. Percebes? É normal esquecer a panela no fogo em um dia de estresse mas não quando em uma semana acabamos esquecendo quase todos os dias.

Se o seu pai costuma perguntar “Que horas é a consulta hoje?” mais de 10 vezes por dia, sua mãe está confundindo mais do que o normal o nome dos netos e seus avós estão tomando os remédios errado e relaxando nos cuidados da casa, vale a investigação! O primeiro passo é visitar um neurologista, psiquiatra ou geriatra, esses são os profissionais mais indicados para, nesse início, começar um diagnóstico.

Não, não existe uma certeza do Alzheimer antes da análise do tecido cerebral, que só é possível depois do óbito. O diagnóstico é considerável POSSÍVEL e depois de uma eliminação de hipóteses de outras várias patologias que trazem sintomas parecidos (depressão, estresse, demência senil, demência cérebro-vascular, hidrocefalia…) ele se torna um diagnóstico PROVÁVEL, quando é possível iniciar um tratamento medicamentos (para minimizar os sintomas da doença, dando mais independência para o idoso por um período que não é possível determinar) aliado a uma base multidisciplinar que pode promover mais qualidade de vida para o idoso e seus familiares, são eles:

– Fonoaudiólogo

– Psicólogo

– Fisioterapeuta

– Terapeuta ocupacional

– Odontogeriatra

Quanto ANTES o idoso e seus familiares tiverem o diagnóstico, maiores serão as chances das bases serem reorganizadas, do idoso, se em fase muito inicial, declarar suas vontades para quando não mais puder falar por si, para o familiar conhecer e se preparar para os próximos estágios e principalmente para buscar todas as alternativas de promover o bem-estar minimizando os estragos.